Fonte: Freepik – TREATS para a pesquisa científica com óleos essenciais
Nos últimos anos, o uso de óleos essenciais tem crescido exponencialmente. Com isso, o interesse científico por esses compostos naturais também aumentou, resultando em uma série de estudos voltados para comprovar suas propriedades terapêuticas. Contudo, a pesquisa com óleos essenciais enfrenta um grande desafio: a falta de padronização nos relatórios científicos, o que prejudica a replicabilidade e a confiabilidade dos estudos.
Neste contexto, surgiu a Lista de Verificação TREATS (Transparent Reporting for Essential Oil and Aroma Therapeutic Studies), uma ferramenta crucial desenvolvida para garantir que os estudos envolvendo óleos essenciais sigam critérios claros e transparentes. Esta lista, criada em resposta à inconsistência e má qualidade dos relatórios em pesquisas com óleos essenciais, transformará a forma como os cientistas conduzem e reportam seus achados, proporcionando mais credibilidade e rigor científico.
Neste artigo, vamos explorar em profundidade a importância da Lista TREATS, seu papel na pesquisa com óleos essenciais e como ela pode melhorar a qualidade dos estudos nessa área tão rica e promissora. Para isso, abordaremos cada seção da lista, discutindo como ela pode ser aplicada na prática e por que é essencial para o avanço da ciência dos óleos essenciais.
O que é a lista de verificação TREATS e por que ela é importante?
A Lista de Verificação TREATS foi desenvolvida pela ARQAT (Aromatic Research Quality Appraisal Taskforce), formada em 2021, com o objetivo de preencher as lacunas encontradas em revisões sistemáticas de estudos envolvendo óleos essenciais. A ARQAT observou que muitos estudos apresentaram dados incompletos, falta de clareza sobre as metodologias utilizadas e, em alguns casos, informações críticas eram completamente omitidas. Isso tornava extremamente difícil replicar os resultados, um requisito fundamental para validar a ciência.
Fonte: ARQAT
Importância da padronização
A Lista TREATS tem como objetivo padronizar os relatórios e estudos com óleos essenciais, assegurando que todas as variáveis críticas – desde a identificação precisa dos óleos até a metodologia aplicada – sejam registradas de forma clara. Isso é especialmente importante porque, ao contrário de muitos medicamentos sintéticos, os óleos essenciais são compostos complexos e naturais, cujas propriedades podem variar drasticamente dependendo de fatores como o método de extração, o local de cultivo e até mesmo o fornecedor.
Além disso, o uso da Lista TREATS melhora a qualidade dos estudos, contribuindo para a confiança nas descobertas. Quanto mais transparentes e completos forem os dados apresentados, mais fácil será para outros pesquisadores replicarem os estudos e confirmarem (ou refutarem) os resultados. A falta de padronização pode levar a uma série de problemas, incluindo a má interpretação dos resultados e a disseminação de informações incorretas, que podem impactar a prática clínica e a saúde pública.
Para preencher a ferramenta, recomendamos o uso de X. As colunas são organizadas para indicar o valor atribuído a X. Na primeira coluna, X = 1 indica que o critério foi plenamente atendido. Na coluna central, X = 0,5 significa que o critério foi parcialmente atendido, resultando em meio ponto. Já na última coluna, X = 0 indica que o critério não foi alcançado. Há também uma seção destinada a explicações e comentários, onde você pode justificar a escolha da coluna correspondente. Ao utilizar essa ferramenta de análise crítica, esses comentários servem como feedback para o pesquisador.
A seguir, abordaremos, com detalhes, cada item do TREATS:
1. Seção 1: Identificação do óleo essencial
A primeira parte da Lista TREATS é dedicada à identificação precisa dos óleos essenciais utilizados nos estudos. Esse é um ponto crucial, pois o nome comum de um óleo essencial não é suficiente para determinar suas propriedades terapêuticas. Óleos essenciais diferentes podem ter composições químicas bastante distintas, mesmo quando extraídos da mesma planta, dependendo da espécie, variedade ou quimiotipo.
Fonte: ABRAROMA
1.1 Nome botânico completo
O nome botânico completo da planta, em latim, deve ser sempre informado. Isso inclui a identificação do gênero e espécie e, quando aplicável, o quimiotipo. Por exemplo, enquanto o óleo essencial de Lavandula angustifolia é frequentemente utilizado por suas propriedades relaxantes, o óleo de Lavandula latifolia possui efeitos estimulantes. Usar apenas o nome “lavanda” para descrever esses óleos diferentes criaria confusão e tornaria impossível replicar o estudo com precisão.
1.2 Método de produção
A maneira como o óleo essencial é extraído também influencia sua composição química. Métodos como destilação a vapor, extração por CO2 supercrítico, prensagem a frio ou extração com solventes produzem óleos com perfis químicos diferentes. Informar claramente o método de produção é essencial para que os leitores e pesquisadores possam entender e replicar os resultados de um estudo.
A falta de clareza sobre o método de produção pode levar a interpretações errôneas dos efeitos terapêuticos dos óleos essenciais. Por exemplo, a destilação a vapor pode resultar em óleos que retém compostos voláteis que se perdem em outros métodos de extração, alterando assim sua eficácia. Por isso, a documentação adequada é fundamental.
1.3 Parte da planta utilizada
Muitas plantas produzem óleos essenciais diferentes dependendo da parte da planta de onde o óleo é extraído. A planta Citrus aurantium, por exemplo, gera três óleos essenciais diferentes: o óleo de casca de laranja amarga, o óleo das folhas e galhos (petitgrain) e o óleo das flores (neroli). Cada um desses óleos possui diferentes composições químicas e, portanto, diferentes aplicações terapêuticas. A correta identificação da parte da planta utilizada é vital para a padronização dos estudos, pois pode influenciar os resultados.
1.4 Método de cultivo
Além do método de produção, o método de cultivo é um fator crítico a ser considerado. Os óleos essenciais extraídos de plantas cultivadas em diferentes condições, como em altitudes variadas ou em diferentes tipos de solo, podem ter composições químicas diferentes. Por exemplo, óleos provenientes de plantas cultivadas em regiões montanhosas podem ter perfis químicos distintos em comparação com aqueles cultivados ao nível do mar. Essa variabilidade pode impactar a replicação dos estudos, sendo essencial que os pesquisadores relatem as condições de cultivo em seus relatos.
1.5 País de Origem
O país de origem do óleo essencial também é relevante. O mesmo tipo de planta cultivada em diferentes países pode apresentar variações significativas na composição química e na qualidade do óleo, influenciadas por fatores como clima, altitude, tipo de solo e práticas agrícolas. Por exemplo, o óleo essencial de Eucalyptus globulus produzido na Austrália pode ter propriedades diferentes do mesmo óleo produzido na Espanha. Informar a origem geográfica permite que os pesquisadores avaliem a influência dos fatores ambientais na composição do óleo.
1.6 Fornecedor do OE
A informação sobre o fornecedor do óleo essencial é vital. É importante distinguir entre o produtor e o distribuidor. O produtor é quem cultiva e extrai o óleo, enquanto o distribuidor pode adicionar sua própria marca e atributos de marketing ao produto. A transparência sobre a origem e a cadeia de suprimento é crucial para avaliar a qualidade e a autenticidade do óleo essencial utilizado nos estudos.
1.7 Lote do OE
O número de lote é um código único fornecido pelo fornecedor que permite rastrear o óleo essencial desde sua origem até o envase. Isso é fundamental para garantir a autenticidade do produto e para que os pesquisadores possam identificar a origem do óleo utilizado em seus estudos. A inclusão dessa informação é essencial, especialmente em contextos onde a qualidade do óleo é crítica para a eficácia dos resultados.
1.8 Identificação dos constituintes químicos do OE
Finalmente, a identificação dos constituintes químicos do óleo essencial é um componente fundamental da pesquisa. Os percentuais dos constituintes majoritários ou totais devem ser listados nos estudos ou estarem acessíveis por meio de links anexos. A análise química, normalmente realizada por cromatografia gasosa e espectrometria de massa (GC-MS), permite comparações entre diferentes estudos que utilizam o mesmo óleo essencial. Essa transparência facilita a replicação e a validação dos resultados.
2. Seção 2: Aplicação e dosagem
A segunda parte da Lista TREATS aborda como o óleo essencial foi aplicado nos estudos. Essa seção é particularmente importante porque a dosagem, a diluição e o método de aplicação podem afetar significativamente os resultados. Na prática, muitos estudos falham em relatar essas variáveis com detalhes suficientes, o que compromete a replicabilidade.
Seção 2A: Aplicação tópica
Fonte: ABRAROMA
2A.1 Diluição do óleo essencial (OE)
A diluição do OE é um dos elementos mais importantes a ser considerado na aplicação tópica, pois a concentração do óleo pode impactar diretamente sua eficácia e segurança. Muitos óleos essenciais podem ser irritantes para a pele quando usados de forma pura (não diluída).
- Recomendação: A diluição deve ser relatada como uma porcentagem, como no exemplo: 3% de óleo essencial de Lavandula angustifolia diluído em óleo de amêndoas-doces. É importante listar tanto o volume ou a massa do OE quanto o nome do diluente utilizado. A ausência desses detalhes pode comprometer a segurança do estudo e dificultar a replicação.
2A.2 Dose do óleo essencial
A dose do OE refere-se à quantidade específica aplicada a cada sessão de tratamento. Detalhar a dose é fundamental para garantir que os pesquisadores e profissionais de saúde possam replicar as condições exatas de um estudo.
- Exemplo: 5 mL de óleo essencial de lavanda a 2% de diluição em óleo de amêndoa. Essa especificação é crucial porque variações na dosagem podem levar a respostas terapêuticas diferentes.
2A.3 Superfície de contato corporal com o OE
A superfície do corpo onde o OE é aplicado pode afetar a eficácia do tratamento e a absorção dos compostos químicos. Diferentes partes do corpo têm diferentes taxas de absorção, e documentar a área de aplicação é essencial tanto para a segurança quanto para a replicabilidade do estudo.
- Exemplo: 2 mL de uma mistura de óleo essencial de rosa a 1% em óleo de jojoba aplicado na testa e nas têmporas do rosto. Essa especificidade garante que outros pesquisadores possam replicar a aplicação com precisão.
2A.4 Frequência do OE
A frequência de aplicação do óleo essencial refere-se a quantas vezes o óleo foi aplicado durante um dia ou durante o período do estudo. Isso é importante para entender o regime posológico e os efeitos acumulativos da terapia.
- Perguntas chave: O óleo foi aplicado uma vez por dia, duas vezes por dia, ou a cada quantas horas? Essas informações devem ser detalhadas no estudo para garantir a precisão dos dados.
2A.5 Duração do OE
A duração do tratamento com OE é igualmente relevante. Isso inclui o número total de dias, semanas ou meses que o tratamento foi realizado e o tempo total de observação dos participantes. Essa informação é crítica para entender os efeitos a longo prazo e garantir a replicabilidade do estudo.
- Exemplo: A intervenção durou seis semanas, com aplicação diária de OE.
2A.6 Descrição do controle ou do placebo
Estudos controlados são essenciais para validar os efeitos terapêuticos dos óleos essenciais. A inclusão de um grupo de controle ou placebo ajuda a eliminar vieses e a garantir que os resultados sejam realmente atribuídos ao tratamento com o OE.
- Exemplos de controles: O controle pode ser um óleo carreador (como óleo de jojoba ou amêndoas), outro óleo essencial, uma fragrância inerte ou até mesmo um “controle de atenção”, onde atividades não equivalentes são realizadas para evitar efeitos placebo.
2A.7 Nome(s) do(s) carreador(es), incluindo binômio completo
O nome do carreador utilizado deve incluir o nome comum, como óleo de amêndoas-doces, bem como o binômio latino, como Prunus amygdalus var. dulcis. Isso garante que qualquer variação entre diferentes carreadores seja documentada, pois eles podem influenciar os efeitos do óleo essencial.
- Exemplo: Óleo de jojoba (Simmondsia chinensis) como carreador.
2A.8 Fornecedor do carreador ou sistema de entrega
O fornecedor do carreador ou sistema de entrega deve ser claramente especificado. Isso é importante porque diferentes produtores podem usar diferentes métodos de extração ou processamento, o que pode impactar a qualidade do produto final.
- Exemplo: O óleo de amêndoas foi fornecido por uma empresa específica, como The Essential Oil Company. Detalhes sobre a origem e o fabricante do carreador ajudam a garantir a rastreabilidade e a replicação.
Seção 2B: Inalação de Óleos Essenciais
A inalação de óleos essenciais é uma das formas mais comuns de administração em aromaterapia e em estudos clínicos. Essa seção da Lista TREATS é dedicada à documentação detalhada sobre como os óleos foram administrados por inalação, seja de forma direta ou indireta. A variação nos métodos de administração pode alterar significativamente os resultados, tornando a documentação detalhada essencial.
Fonte: ABRAROMA
2B.1 Forma de inalação
A forma de inalação do OE pode variar significativamente entre estudos e pode impactar os resultados. As formas mais comuns incluem inalação direta, onde o participante inala o óleo diretamente de um inalador pessoal (como um aromastick ou bastão olfativo), e inalação indireta, onde o óleo é disperso no ambiente por um difusor.
2B.2 Dose do OE
A dose de OE administrada por inalação também deve ser claramente especificada. Isso inclui o volume total de OE (em mL, gotas, ou porcentagem), a distância entre o aparelho de inalação e as narinas, e, no caso de difusores, a distância entre o difusor e o participante, além do tamanho da sala utilizada para a difusão.
- Exemplo: 0,5 mL de óleo essencial de lavanda colocado em um inalador pessoal, posicionado a 5 cm das narinas durante 5 minutos. Em caso de difusão, o estudo deve especificar o tamanho da sala (por exemplo, 20 metros quadrados).
2B.3 Frequência do OE
A frequência de administração deve ser relatada para determinar o regime posológico completo. A frequência pode variar de uma vez por dia até várias vezes ao dia, dependendo do estudo.
- Exemplo: A inalação foi realizada duas vezes ao dia, por um período de 15 minutos em cada sessão.
2B.4 Duração do OE
A duração total do tratamento com OE por inalação deve ser especificada. Isso inclui o número de dias, semanas ou meses de uso, e a duração total de cada sessão de inalação.
- Exemplo: A intervenção durou seis semanas, com sessões de inalação diárias de 15 minutos.
2B.5 Descrição do controle ou do placebo
Assim como na aplicação tópica, é importante incluir um grupo controle ou placebo para garantir a validade científica do estudo. O controle pode ser uma fragrância inerte ou até mesmo água destilada usada no difusor, que não possui propriedades terapêuticas, mas imita o tratamento.
- Exemplo: O grupo de controle utilizou água destilada no difusor, enquanto o grupo experimental inalou óleo essencial de lavanda.
2B.6 Nome(s) do(s) carreador(es), incluindo binômio completo
Se um carreador foi utilizado para a inalação, como em difusores que utilizam água, o nome do carreador deve ser listado, incluindo seu binômio latino.
- Exemplo: Água destilada foi usada no difusor ultrassônico para dispersar o óleo essencial no ambiente.
2B.7 Fornecedor do carreador ou sistema de entrega
O fornecedor do carreador ou do sistema de entrega deve ser especificado, assim como qualquer equipamento utilizado para administrar o OE.
- Exemplo: Difusor ultrassônico de névoa fria da marca ZAQ Dew Litemist foi usado para a dispersão do óleo essencial de lavanda.
Seção 3: Intervenção Aromaterapêutica
A Seção 3 da Lista de Verificação TREATS aborda a intervenção aromaterapêutica e os aspectos críticos que precisam ser documentados para garantir a consistência, segurança e qualidade dos estudos com óleos essenciais (OE). Esta seção concentra-se na explicação dos protocolos, na justificativa para a escolha dos óleos, no envolvimento de aromaterapeutas alterados e em medidas de segurança para garantir que uma intervenção seja adequada e segura.
Fonte: ABRAROMA
3.1 Uma descrição clara é necessária para confiança, fidelidade e consistência dos protocolos.
A primeira coisa a se garantir em um estudo com óleos essenciais é ter um protocolo claro. Isso é essencial para que o estudo seja confiável e reproduzível. Ou seja, outros pesquisadores devem ser capazes de seguir o mesmo protocolo e obter resultados semelhantes.
Mas o que significa exatamente ter um protocolo claro?
- Fidelidade ao Protocolo: O estudo foi conduzido exatamente como planejado? Sem essa fidelidade, os resultados podem perder sua validade.
- Descrição Detalhada: O protocolo precisa ser explicado de maneira que qualquer pessoa, lendo o estudo, possa replicá-lo da mesma forma. Detalhes como a frequência de aplicação, a dosagem do óleo e a forma de administração precisam estar claros.
Um exemplo seria descrever que o óleo essencial de lavanda foi aplicado 2 vezes ao dia durante 4 semanas em uma área específica do corpo.
3.2 A razão para a escolha do OE
Por que aquele óleo essencial foi escolhido? A razão para a escolha do OE precisa estar clara no estudo. Isso ajuda a garantir que o óleo é apropriado para a população estudada (como idade e condições de saúde) e para o objetivo da pesquisa.
- Adequado para a população: É importante escolher um óleo que faça sentido para o público estudado. Por exemplo, o óleo de camomila pode ser mais apropriado para crianças devido às suas propriedades suaves e calmantes.
- Relevante para a hipótese: Se o estudo está testando se o óleo essencial de lavanda ajuda a reduzir o estresse, a escolha do óleo deve ser baseada em evidências anteriores que apontam essa propriedade relaxante da lavanda.
3.3 Alguma estrutura conceitual teórica foi fornecida?
Um ponto que muitas vezes é negligenciado em pesquisas de aromaterapia é a estrutura conceitual ou teórica que justifica a escolha do óleo e a abordagem do estudo. Embora não seja comum, é importante incluir uma base teórica para fortalecer o estudo.
Alguns exemplos de teorias que podem ser usadas em estudos de aromaterapia incluem:
- Teoria do Conforto de Katherine Kolcaba
- Teoria do Caos de Margaret Wheatley
Ao incluir essas teorias, o estudo ganha mais profundidade e uma fundamentação sólida.
3.4 Um aromaterapeuta qualificado foi consultado: aromaterapeuta registrado, aromaterapeuta certificado ou aromaterapeuta qualificado ou o nome da escola de aromaterapia ou do curso foi fornecido?
Para garantir que os óleos essenciais sejam usados corretamente, a TREATS recomenda que um aromaterapeuta qualificado seja consultado no estudo. Isso é importante porque o aromaterapeuta tem um conhecimento especializado sobre a química dos óleos e sua segurança.
Ter um profissional qualificado envolvido no estudo assegura que os óleos essenciais são utilizados de maneira segura e apropriada para o tratamento proposto.
3.5 Considerações sobre segurança
A segurança é uma prioridade em qualquer estudo com óleos essenciais, e há várias questões que os pesquisadores devem considerar para garantir o bem-estar dos participantes.
- Histórico de reações alérgicas: Os pesquisadores devem avaliar se os participantes já tiveram reações alérgicas ou sensibilidade a óleos essenciais ou fragrâncias e excluir esses indivíduos, se necessário.
- Exclusão de gestantes e lactantes: Se o estudo inclui gestantes ou lactantes, os óleos essenciais utilizados devem ser seguros para essas condições. Alguns óleos, como o óleo de hortelã-pimenta, podem ser contraindicados.
- Crianças e bebês: Se o estudo envolve crianças ou bebês, é preciso tomar cuidado extra na escolha dos óleos, já que certos óleos podem não ser seguros para essa faixa etária.
Além disso, se o estudo usa um difusor, deve-se garantir que ele seja limpo adequadamente entre as sessões para evitar contaminação.
3.6 Relato de reações alérgicas ou adversas ao OE ou ao controle durante o ensaio ou relato de que não houve reações adversas
Outro ponto essencial é o monitoramento de reações alérgicas ou adversas durante o estudo. Mesmo que o participante não tenha um histórico de sensibilidades conhecidas, é importante observar se alguma reação inesperada ocorre.
- O que relatar?: Caso um participante tenha uma reação adversa, o estudo deve descrever detalhadamente quantos participantes foram afetados, o tipo de reação e quais medidas foram tomadas para lidar com a situação.
Isso ajuda a aumentar a transparência do estudo e permite que outros pesquisadores conheçam os possíveis riscos associados ao uso do óleo essencial.
3.7 Considerações acerca da segurança do armazenamento do OE e sua validade durante o ensaio
Os óleos essenciais podem perder suas propriedades terapêuticas se não forem armazenados corretamente. Por isso, o estudo precisa detalhar como o óleo foi armazenado e se estava dentro do prazo de validade.
- Proteção contra luz e calor: O óleo foi armazenado longe de fontes de calor e luz? Essas condições podem alterar a qualidade do óleo, e isso deve ser evitado.
- Data de validade: A validade do óleo essencial também é um fator importante. O estudo deve mencionar se a data de destilação foi verificada e se o óleo estava dentro do prazo de validade.
Seção 4A: Questões da função olfativa
Antes de qualquer intervenção com óleos essenciais, é fundamental entender a capacidade olfativa dos participantes. Isso ajuda a garantir que os resultados do estudo não sejam distorcidos por fatores como perda de olfato ou aversões fortes a determinados cheiros.
Fonte: ABRAROMA
4A.1 Anosmia
A anosmia é a incapacidade parcial ou total de perceber cheiros. Perguntar aos participantes se já tiveram perda de olfato recentemente é importante, mas nem sempre significa que essas pessoas devem ser excluídas do estudo. Se o estudo depende fortemente da percepção do aroma, a anosmia pode influenciar os resultados. Portanto, essa avaliação inicial é essencial para ajustar o protocolo, caso necessário.
4A.2 Uso prévio de OEs
Outro ponto importante é perguntar aos participantes se eles já usaram óleos essenciais antes e se têm alguma preferência ou aversão específica. Algumas pessoas podem ter experiências negativas com certos óleos, como espirros, dor de cabeça ou irritação ocular. Se um participante tem uma aversão forte ao óleo que será usado no estudo, pode ser melhor excluí-lo para evitar resultados distorcidos.
Seção 4B: Questões olfativas interferentes, caso pertinente, em um ambiente experimental
Uma vez que o estudo começa, também é essencial controlar as variáveis do ambiente olfativo para garantir que os cheiros não interfiram no processo experimental. Aqui estão algumas considerações importantes que os pesquisadores devem ter em mente durante o estudo:
Fonte: ABRAROMA
4B.1 Teste Olfativo
Antes de começar a exposição aos óleos essenciais, o ambiente e os participantes precisam estar preparados adequadamente. Os pesquisadores devem garantir que:
- Os participantes não estejam usando perfumes ou loções perfumadas no dia da intervenção, para evitar que outros cheiros interfiram no aroma do óleo essencial.
- Os participantes não estejam com congestão nasal ou alergia no dia do teste, pois isso pode comprometer a percepção do cheiro.
- Os testes sejam feitos em espaços individuais ou cubículos, para evitar que os aromas de um participante interfiram nos de outro.
- O ambiente seja preparado para que, se um aroma residual permanecer após a intervenção, ele seja removido antes de novos participantes entrarem no espaço.
4B.2 Reconhecimento do Odor
O reconhecimento do odor pelos participantes pode influenciar suas expectativas. Se eles reconhecem o aroma de um óleo essencial, podem criar expectativas sobre seus efeitos, como “esperar que a lavanda seja relaxante”. Isso pode, potencialmente, enviesar os resultados, pois os participantes podem responder de acordo com suas expectativas, e não necessariamente devido ao efeito real do óleo.
4B.3 Declaração das expectativas dos participantes
Antes de iniciar o estudo, os pesquisadores devem perguntar aos participantes quais são suas expectativas em relação ao aroma. Se o participante acredita que um óleo essencial terá um efeito específico (como “lavanda vai me relaxar”), essa expectativa pode afetar como ele responde ao tratamento. Estudos anteriores mostraram que as expectativas podem ter uma influência significativa, por isso, os pesquisadores devem estar atentos a essa possibilidade.
4B.4 Vieses de preferência olfativa
As preferências pessoais por certos aromas também podem interferir nos resultados. Perguntar se os participantes gostam ou não do aroma usado no estudo é importante, pois quem gosta de um cheiro pode ter uma resposta fisiológica diferente de quem não gosta. Esse viés precisa ser reconhecido e tratado nas limitações do estudo.
4B.5 Percepção da intensidade do aroma
A intensidade do aroma também deve ser avaliada. Cheiros muito fortes podem ser percebidos como desagradáveis, o que pode afetar negativamente a experiência do participante. Por outro lado, aromas muito fracos podem não causar o efeito desejado. Além disso, é necessário considerar a fadiga olfativa, que ocorre quando uma pessoa perde a sensibilidade ao cheiro após uma exposição prolongada. Esse fenômeno pode fazer com que o participante perceba o aroma como menos agradável com o tempo.
4B.6 Efeito adverso no teste olfativo
Além de garantir que o ambiente e a experiência dos participantes estejam adequados, é importante prestar atenção em possíveis efeitos adversos durante o teste olfativo. Mesmo que o participante não tenha histórico de reações a fragrâncias, pode ser que ele experimente sensações desagradáveis durante o estudo, como:
- Espirros
- Lacrimejamento
- Dor de cabeça
- Náusea
- Excesso de salivação, possivelmente como resposta do nervo trigêmeo
Relatar esses efeitos adversos é crucial para garantir a transparência e a segurança do estudo. Mesmo que não haja efeitos adversos, é importante incluir uma declaração no estudo indicando que os pesquisadores verificaram a segurança e que não foram observados problemas.
Somatório da pontuação final da qualidade do estudo
Transfira os pontos de cada seção para a tabela abaixo e some-os para obter o total.
Fonte: ABRAROMA
- Para itens marcados como “N/A” (não aplicável), esses pontos devem ser excluídos do cálculo final. Ajuste o total de pontos conforme necessário. Por exemplo, se a seção “2B – Nome(s) do(s) carreador(es)” foi considerada não aplicável e a única via de uso for por inalação, o cálculo seria modificado para 16/29.
A pontuação total seguirá a seguinte escala:
- 0-10 = Pobre
- 11-20 = Razoável
- 21-38 = Bom
Essas pontuações servem apenas como referência. Comentários adicionais e conclusões são essenciais para contextualizar o resultado. Por exemplo: “16/30 – Prática de aromaterapia de qualidade razoável neste estudo, com reconhecimento das melhores práticas no relatório sobre OE e segurança. No entanto, não houve menção sobre como os vieses olfativos e da função olfativa foram abordados.”
A importância da transparência nos relatórios científicos com óleos essenciais
A transparência e a clareza nos relatórios científicos são essenciais para o avanço da pesquisa com óleos essenciais. A Lista de Verificação TREATS foi criada justamente para garantir que todos os detalhes importantes sejam incluídos, desde a identificação correta dos óleos até a descrição precisa da metodologia e dos resultados.
Quanto mais detalhados e claros forem os relatórios, mais fácil será para outros pesquisadores replicarem os estudos, contribuindo para o avanço do conhecimento científico na área de aromaterapia. A falta de padronização nos relatórios compromete a replicabilidade dos estudos, limitando o impacto das descobertas e criando incertezas sobre a validade dos resultados.
Conclusão: Como a lista TREATS transforma a pesquisa com óleos essenciais
A Lista de Verificação TREATS é uma ferramenta indispensável para garantir que a pesquisa com óleos essenciais seja conduzida de maneira transparente, clara e padronizada. Ao seguir essa lista, pesquisadores asseguram que seus estudos sejam replicáveis, contribuindo para o avanço da ciência na área de aromaterapia.
Estudos que seguem a TREATS não apenas ganham mais credibilidade, mas também oferecem resultados mais confiáveis, que podem ser aplicados em terapias reais, beneficiando tanto os praticantes quanto os consumidores de óleos essenciais.
Em última análise, a TREATS promove a qualidade, segurança e confiabilidade da pesquisa com óleos essenciais, pavimentando o caminho para uma aromaterapia baseada em evidências robustas. Se você trabalha ou pesquisa com óleos essenciais, adotar a TREATS é um passo essencial para garantir que seus estudos contribuam verdadeiramente para o avanço dessa ciência fascinante.
REFERÊNCIA:
ABRAROMA. Lista de verificação TREATS – arquivos em português. 2024. Disponível: https://aromaterapia.org.br/lista-de-verificacao-treats-arquivos-em-portugues/. Acesso em: 13 de outubro de 2024.